Conjuntivite neonatal: causas e tratamento

A conjuntivite (oftalmia) neonatal é definida como inflamação conjuntival no primeiro mês de vida e deve ser avaliada pela oftalmologia.

Cursa com graus variáveis de hiperemia (vermelhidão) conjuntival, secreção ocular e edema (inchaço) palpebral.

O diagnóstico diferencial inclui conjuntivite química, conjuntivite adquirida no canal de parto, conjuntivite bacteriana aguda e obstrução congênita de vias lacrimais: 

  1.  A conjuntivite química é causada pelo nitrato de prata, instilado nos olhos de recém-nascidos, geralmente em partos vaginais, como prevenção (profilaxia contra gonococo). O quadro é leve, bilateral, costuma iniciar até o segundo dia de vida e resolver espontaneamente em 3 a 4 dias. Não necessita de tratamento.
  1.  A conjuntivite adquirida no canal de parto pode ser causada por gonococo, clamídia ou, menos frequentemente, por herpes simples. Ocorre em neonatos nascidos por parto vaginal. Podem estar relacionadas a complicações oculares e sistêmicas graves.

  • A conjuntivite gonocócica inicia na primeira semana de vida (1 a 7 dias; excepcionalmente mais tardiamente, até 21 dias).  Geralmente é bilateral, tem instalação hiperaguda e é severa, com edema palpebral importante e secreção purulenta abundante. Se não tratada, pode evoluir para úlcera de córnea, perfuração ocular e cegueira. Há necessidade de internação se suspeita de artrite, meningite ou sepse.

  • A conjuntivite clamidiana inicia geralmente na segunda ou terceira semanas de vida (5 a 19 dias). Pode ser uni ou bilateral. A secreção ocular pode ser purulenta, mucopurulenta, membranosa e/ou hemática, e persiste por até 12 meses se não tratada. Pneumonite, rinite e otite podem estar associadas.

  • A conjuntivite herpética inicia até a segunda semana de vida, está associada a lesões vesiculares na pele e possivelmente à encefalite. A doença herpética em recém-nascido requer internação hospitalar.
  1.  A conjuntivite bacteriana aguda pode ser uni ou bilateral, apresenta secreção mucopurulenta leve a moderada, geralmente inicia no final da primeira semana de vida, mas pode ocorrer em qualquer período neonatal. O agente mais frequente é o estafilococo. É autolimitada, com resolução em até 7 dias.

  1.  A obstrução congênita de via lacrimal (ver post) ocorre unilateralmente e cursa com lacrimejamento ocular persistente nos primeiros meses de vida. A conjuntivite bacteriana aguda ipsilateral (do mesmo lado) é uma complicação frequente da obstrução e pode ser recorrente. Como o recém-nascido tem menor produção de lágrima, as conjuntivites associadas à obstrução de via lacrimal tendem a ocorrer após o período neonatal.

Em todos os casos de suspeita de conjuntivite infecciosa em neonatos, a conduta é coletar material (raspado conjuntival com swab) para bacterioscopia e cultura.

Na indisponibilidade de realizar coleta ou de encaminhar para serviço de referência, recomenda-se realizar tratamento empírico conforme características da conjuntivite e período de incubação.

Na suspeita de conjuntivite bacteriana aguda, tratar com antibiótico tópico de amplo espectro (cloranfenicol colírio 0,4% ou tobramicina colírio 0,3%, 4 em 4 horas, por 5 a 7 dias).

Na suspeita de conjuntivite gonocócica ou clamidiana, tratar com antibioticoterapia sistêmica conforme o início do quadro.

  • Início entre o segundo e quarto dia de vida: realizar tratamento para gonococo.
  • Início entre o quinto e vigésimo primeiro dias de vida: realizar tratamento para gonococo e clamídia.
  • Início a partir do vigésimo segundo dia de vida: realizar tratamento para clamídia.

 

Gonococo Ceftriaxone 25-50 mg/kg (máximo de 125 mg),  intravenoso ou intramuscular, em dose única
Clamídia Eritromicina 50 mg/kg/dia, via oral, dividida em 4 doses, por 14 dias. Está associada com aumento de risco de estenose hipertrófica de piloro.

Recomenda-se tratar também a mãe e parceiro para infecção por gonococo e clamídia (Ceftriaxone 250mg, intramuscular, em dose única e Azitromicina 1 g, via oral, em dose única), além de se realizar o exame genital e sorologias para sífilis, HIV e hepatites B e C, após aconselhamento.

Fonte: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/conjuntivite-neonatal/

Saiba mais (importante):

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem aproximadamente 1,4 milhão de crianças com deficiência visual no mundo, sendo que cerca de 90% vivem em países em desenvolvimento ou muito pobres.

A cada ano, aproximadamente 500 mil crianças ficam cegas e em torno de 60% morrem na infância. Cerca de 80% das causas de cegueira infantil são preveníveis ou tratáveis.

O quanto antes ocorrer o diagnóstico, tratamento e habilitação visual, melhor são as chances de desempenho da pessoa com deficiência visual.

Ao nascer, os elementos anatômicos essenciais para o processamento visual estão presentes, porém não completamente desenvolvidos. O sistema visual da criança amadurece durante a primeira década de vida, sendo o período mais crítico os primeiros 18 meses.

O teste do reflexo vermelho é uma ferramenta de rastreamento de alterações que possam comprometer a transparência dos meios oculares, tais como catarata (alteração da transparência do cristalino), glaucoma (alteração da transparência da córnea), toxoplasmose (alteração da transparência do vítreo pela inflamação), retinoblastoma (alteração da transparência do vítreo pelo tumor intraocular), descolamentos de retina tardios.

Prevenção de oftalmia neonatal no nascimento: discussão para mudança da prática

Texto (trabalho científico de 2016) disponível na íntegra em: http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/147944

A revisão integrativa reúne achados obtidos de outras pesquisas sobre o mesmo tema, com o objetivo de sintetizar e analisar os dados obtidos, desenvolvendo uma explicação mais abrangente do fenômeno estudado.

O objetivo da autora (Linhares, J.C.C.) foi conhecer a literatura sobre quais os fármacos são utilizados para a prevenção da oftalmia neonatal no momento do nascimento do recém-nascido. Foram utilizadas as bases de dados LILACS, CINAHL, Medline e biblioteca eletrônica SCIELO.

Os critérios de inclusão foram: artigos originais publicados entre os anos de 2005 a 2015; disponíveis online; gratuitos, completos; em português, inglês e espanhol e que contextualizassem a prevenção de oftalmia neonatal. Compuseram a amostra sete artigos.

Em resumo:

  • Vitelinato de prata, eritromicina e iodopovidona foram os fármacos mais estudados.
  • Nitrato de prata é citado em pesquisa desenvolvida no Brasil.
  • Iodopovidona foi avaliada em três estudos. Em dois estava associado a conjuntivite química; mostrou-se menos eficaz na prevenção da oftalmia neonatal, quando comparada a cloranfenicol e tetraciclina.
  • Vitelinato de prata mostrou-se ineficaz contra Chlamydia trachomatis. É utilizado como profilaxia para oftalmia neonatal, mas não há recomendação para seu uso com esta finalidade pelas instituições de saúde pública do Brasil.
  • Eritromicina se mostrou menos eficaz na prevenção da oftalmia neonatal, quando comparada a solução salina ou colírio de betadine 2,5%.
  • Nitrato de prata é utilizado na prevenção da oftalmia neonatal por 86% das unidades neonatais da cidade de São Paulo, sendo sua utilização obrigatória por lei.
  • Cinco pesquisas avaliaram a flora da conjuntiva dos recém-nascidos, nenhuma encontrou a bactéria Neisseria gonorrhoeae e três encontraram Chlamydia trachomatis nas amostras avaliadas.

Com esse estudo foi possível evidenciar que não existe um consenso sobre qual seria o fármaco de melhor escolha para prevenção da oftalmia neonatal. Todavia, fica evidente a necessidade de se discutir mudanças nas práticas atuais.”